sábado, 9 de maio de 2009

Um homem bom - adeus a Reinaldo Maia

Texto extraído do site do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores/Secretaria de Cultura
Um homem bom - adeus a Reinaldo Maia
por Roberto Gonçalves de Lima

Repentinamente o mundo, sobretudo o mundo do Teatro, recebe a notícia de que não podemos mais contar com Reinaldo Maia.
Vai-se um dramaturgo, diretor e ator que sabia o que fazia por que havia escolhido o que queria fazer. Sabia quem era, onde estava e para onde queria ir
Vai-se um amigo, embora fosse um sujeito chato e até irritante, sempre irônico e quase sempre sarcástico, virtudes de sábio que ele interrompia repentinamente com uma doçura e uma leveza tão surpreendentes e tão emocionantes que deixavam qualquer um perdido.
Vai-se um sujeito que pensava o Teatro e a política para o Teatro com rara competência e lucidez. Que fez política e Teatro de modo a dignificar ambos, como poucos puderam.
Não pude privar da sua companhia tanto quanto gostaria, mas lembro de duas passagens que ilustram bem o que sinto pelo Maia.
Em 1989, durante a campanha do Lula para a presidência...
Eu petista roxo e ele comunista das boas cepas do PCB. O lugar é o antigo Teatro do Bexiga, onde artistas se reuniam toda segunda-feira para planejar a nossa inserção na campanha. Eu sentava sempre ao lado do Maia, justamente porque ele fazia questão de criticar tudo e todos sempre. Às vezes zombando, às vezes indignado, sempre irritado, mas não arredava pé. Entregava papelzinho, colava santinho, ganhava voto aqui e ali, mas achava que estava tudo errado. Tudo errado e ele lá. Lutando.

Ouro episódio...
Eu, à época secretário estadual de cultura do PT/SP, organizo com a turma um encontro em Osasco. A coisa se deu em um salão paroquial num dia de calor desumano que vencia sem dificuldade os muitos ventiladores ligados.

Só petistas na platéia, ou quase isso. Muitos gestores municipais de cultura em começo de trabalho. Levamos o Maia pra falar sobre o que quisesse. Maia falou do papel do artista e da arte como fatores de transformação do mundo, falou para todos ali que não valia a pena ser secretário de cultura sem lutar diuturnamente por um mundo melhor, e que a Arte era o melhor veículo de que a sociedade dispunha para sua própria transformação.
Eu via naquele ânimo um menino que não estava tentando, mas que sabia que estava efetivamente transformando o mundo ali e naquela hora.
Ao receber a notícia da morte desse guerreiro pensei que a gente nunca sabe por que os homens conseguem ser bons.
Diante de um mundo onde sagra tanta idiotice, idiotice essa que o Maia acusava sempre com aquele rizinho corrosivo e divertido, como ser um homem bom?

Mais importante é que Maia deixou para uma infinidade de moleques fazedores de Teatro a lembrança de termos tido nele um ponto de referência, um corajoso ponto de referência para todos que quizessem navegar em direção ao tal mundo melhor que ele parecia já ter vislumbrado, e certamente era a nossa cegueira diante dele que o deixava tão divertidamente irritado.

É difícil saber como se faz um homem bom, mas difícil mesmo é aceitar que eles morram.
Maia levou consigo esse mistério.

*Roberto Gonçalves de Lima é dramaturgo e gestor cultural.

Postado pelo Marcelão na comunidade Ibitinga no orkut

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